10 setembro 2026

Capítulo 1 - Romances Trouxas e Bolos de Madrugada.

            O Castelo de Hogwarts está sob uma atmosfera tensa, cinzenta e completamente diferente dos anos anteriores. A vigilância dos Carrows e a sombra da guerra lá fora mudaram a rotina de cada corredor, mas dentro da Torre da Grifinória, o espírito de resistência ainda pulsa.

Sarah Griller está sentada em uma poltrona gasta perto da lareira da Sala Comunal, o fogo estalando baixo enquanto a noite cai lá fora sobre o Lago Negro. Apenas alguns alunos circulam pelo espaço, a maioria guarda livros com capas reforçadas ou sussurra sobre quem foi visto na detenção hoje mais cedo.

Hermione Granger está concentrada em um pergaminho interminável sobre a mesa de canto, enquanto Harry Potter e Ronald Weasley conversam baixinho perto da janela, trocando olhares preocupados sobre o mapa que costumam esconder.

A porta da Sala Comunal se abre com um rangido abafado, trazendo o vento frio das masmorras.

A menina figurante segue sentada na poltrona, com um livro em mãos. Ela tenta acompanhar a história, que até lhe parece interessante. No entanto, acaba se distraindo com as pessoas ao seu redor, especialmente com o Trio de Ouro, o eterno centro das atenções. O peso do livro nas suas mãos vai se tornando secundário conforme o som das páginas viradas diminui e sua atenção é puxada para a dinâmica do outro lado da sala.

Harry e Rony encerram a conversa sussurrada; Rony balança a cabeça, visivelmente frustrado com alguma coisa, enquanto guarda um pedaço de pergaminho amassado no bolso. Hermione nem chega a erguer os olhos quando Harry passa por ela e caminha em direção às escadas que levam aos dormitórios masculinos, murmurando que precisa de ar ou de silêncio. Weasley hesita por um segundo, olhando para Hermione como se quisesse dizer algo, mas acaba apenas suspirando pesadamente e afundando no sofá ao lado da lareira, encarando as chamas com um olhar distante e exausto.

Na mesa de canto, Hermione finalmente larga a pena com um suspiro audível, esfregando os olhos de cansaço. Ela percebe o seu olhar, erguendo o rosto na sua direção com uma expressão que mistura a tensão do momento com um lampejo de curiosidade por vê-la tão atenta.

— Conseguiu se concentrar em alguma coisa com todo esse barulho lá fora, Griller? — Hermione pergunta em um tom baixo, a voz cansada, mas receptiva, enquanto cruza os braços apoiada na mesa. — Se bem que duvido que o castelo inteiro esteja conseguindo pensar em estudos ultimamente. O que você está lendo?

Tentando não transparecer a vergonha por ter sido pega os observando, ela apenas sorri e busca manter a naturalidade da conversa.

— Sou acostumada a ler com barulhos, minha família não é muito silenciosa. — Ela solta uma risadinha ao lembrar do quanto os seus pais costumam ser barulhentos, sentindo uma pontada de saudade de casa. — Nada demais, apenas um romance trouxa bobo que peguei emprestado com a minha prima nas férias. Tô tentando me distrair um pouco, sabe? As coisas por aqui não andam muito fáceis.

Um sorriso genuíno, ainda que cansado, escapa dos lábios de Hermione. Ela desfaz a postura tensa, descruzando os braços e apoiando o queixo nas mãos, parecendo genuinamente aliviada por desviar o foco dos problemas iminentes por alguns segundos.

— Um romance trouxa? — Hermione repete, os olhos brilhando com uma ponta de nostalgia e afeto. Ela solta um suspiro suave, balançando a cabeça. — É bem raro ver literatura não-mágica circulando por aqui, ainda mais agora. Sabe... às vezes sinto falta disso. É tão revigorante ler histórias onde as pessoas precisam se entender sem depender de uma Amortentia ou de um feitiço de memória, não é? Qual é o livro?

Antes que Sarah possa responder, Rony resmunga algo ininteligível do sofá, chutando levemente o pé de uma mesa de centro de madeira. Granger lança um olhar rápido e severo para ele, depois volta a atenção inteiramente para Sarah, baixando ainda mais a voz, como se quisesse criar uma barreira de privacidade contra o caos do resto do castelo.

— E você tem razão... Nada aqui está fácil — Hermione continua, a sombra da preocupação voltando a nublar o semblante dela. — Às vezes parece que estamos segurando um castelo de cartas com uma ventania soprando dos dois lados. 

Antes que Sarah possa responder a Hermione, a tapeçaria que cobre a entrada da Torre da Grifinória se afasta com um puxão brusco. Fred e Jorge entram quase tropeçando um no outro, com as roupas sujas da poeira de alguma passagem secreta esquecida e sorrisos de quem acabou de driblar a segurança dos Carrows. Eles carregam caixas estufadas com a logo das Gemas Weasley:

— Contrabando puro para a resistência interna. — Jorge joga uma pequena fita de fogos de artifício na direção de Rony, que resmunga ainda mais alto ao desviar, enquanto Fred para bem na sua frente, apoiando os braços no encosto da sua poltrona com um sorriso maroto.

— Romance trouxa, hun? Se precisar de dicas de como sabotar o final feliz com uma boa dose de caos e feitiços de desaparecimento, é só chamar, Griller — Fred diz piscando, antes de Jorge puxá-lo pelo ombro. 

Enquanto isso, a porta se abre de novo, revelando Luna Lovegood, que parece ter entrado por engano ou por pura intuição, segurando um exemplar do Pasquim de cabeça para baixo e olhando fixamente para o teto da sala comunal.

— O ar por aqui está carregado de Narsus hoje... É melhor protegerem as orelhas — Luna comenta com sua voz sonhadora, parando bem perto de você e desviando o olhar curioso do livro na sua mão para o seu rosto.

Era muita gente falando ao mesmo tempo e aglomerada na sala comunal; informação demais. Sarah apenas sorri de forma gentil para todos e pede licença para se retirar.

— Acho que vou procurar algo para comer, pessoal.

Ao deixar a sala comunal, ela torce para encontrar algum elfo doméstico na cozinha que possa lhe preparar um lanche.

O corredor fora da Torre da Grifinória está frio e silencioso, um contraste gritante com o caos que ficou para trás. Seguindo de memória o caminho até o porão, Sarah encontra o quadro da fruteira. Ao fazer cócegas na pera verde, ela se transforma em uma maçaneta verdejante que se abre para a imensa cozinha de pedra.

Vários elfos domésticos correm de um lado para o outro, mas um deles, vestindo um pano de prato impecável como uma toga, logo a avista com um sorriso acolhedor e um estalar de dedos faz aparecer uma travessa fumegante de torta de chocolate quentinha na mesa mais próxima.

— A senhorita Griller está pálida, precisa de açúcar para o estômago e para a alma! — o elfo diz solícito.

Enquanto Sarah saboreia o doce nas mesas compridas, passos apressados ecoam na entrada da cozinha. Draco Malfoy entra no cômodo, parecendo irritado e tentando fugir de algum monitor ou professor. Ele para abruptamente ao vê-la ali comendo no meio da madrugada. Ele cruza os braços, erguendo a sobrancelha platinada com desdém, mas há uma certa exaustão evidente em seu rosto.

— Grifinória na cozinha dos elfos a essa hora? — Draco diz, a voz arrastada e irônica. — Perdeu o rumo da Torre ou os santinhos da casa de vocês estão te sufocando?

Terminando de comer seu pedaço de bolo sem a menor pressa, como se não houvesse nada mais interessante a fazer, a bruxa lambe os dedos como uma criança distraída. É só então que finge finalmente notar a presença dele.

— Oh, Malfoy, perdão, não tinha te visto aí. Falou alguma coisa?

Ela abre um sorriso irônico na direção do garoto, cruzando os braços enquanto se encosta em uma mesa. Embora não goste de admitir, a mesma intensidade com que Draco a tira do sério também a fascina de uma forma um tanto estranha.

Os olhos cinzentos de Draco se estreitam ao vê-la lamber os dedos, um vislumbre de confusão e irritação cruzando o rosto dele antes de ele erguer o queixo de novo, assumindo a pose soberba.

— Não fale besteira, Griller. E aprenda a usar um guardanapo, isso é péssima educação — ele resmunga, dando alguns passos para o interior da cozinha e olhando com desgosto fingido para a sua travessa de chocolate.

Um elfo doméstico surge instantaneamente ao lado dele com um copo de suco de abóbora gelado, que Draco aceita com um aceno seco. Ele se escora na mesa oposta à sua, mantendo uma distância segura, mas o olhar dele não desvia tão rápido quanto ele gostaria.

— O que uma leãozinha orgulhosa como você está fazendo escondida nas masmorras a essa hora? — Draco pergunta, a voz arrastada carregando aquele tom de zombaria habitual, mas sem a energia típica de quem quer briga de verdade. — Fugindo dos salvadores da pátria da Grifinória? Porque, se for isso, eu até entendo. Ninguém aguenta a Granger discursando sobre regras de toque de recolher por mais de dez minutos.

Mesmo sabendo que a intenção dele era menosprezá-la, toda vez que ele a chamava de "leãozinha", ela sentia um frio na barriga... e não era de um jeito ruim. Aquele, no entanto, era um segredo que ela jamais permitiria que ele descobrisse.

— Ora, Malfoy, desde quando você patrulha os corredores com crachá oficial para eu ter que te prestar contas? Pensei que o seu precioso distintivo tivesse tirado férias permanentes... Ou será que você só gosta de bancar o fiscal dos outros por falta de coisa melhor para fazer?

Os olhos cinzentos de Draco estreitam-se perigosamente, a mandíbula travando por um segundo com a alfinetada certeira sobre a perda do cargo, mas ele engole o desaforo com um sorriso amarelo e soberbo. Sarah aceita o suco de laranja que um elfo acabou de lhe oferecer e toma um gole, antes de continuar a falar:

— Mas... apesar de doer assumir isso, devo concordar que esse papo sobre o toque de recolher realmente tá ficando chato.

Dando mais um gole, ela aguarda Malfoy soltar alguma de suas típicas gracinhas, mas acaba notando que o garoto parece estar com a cabeça longe.

— Ei, Malfoy... tá... hm... tá tudo bem?

Draco engole em seco com a sua pergunta, o cenho franzindo em um reflexo defensivo antes que ele consiga disfarçar. Ele desvia o olhar cinzento para longe de Sarah, encarando as panelas de cobre brilhantes penduradas na parede por alguns segundos.

— Não enche, Griller. Está tudo perfeitamente sob controle, o que é mais do que se pode dizer do resto da escola — ele responde, com a voz um pouco mais seca e fria do que o normal, tentando retomar a pose altiva.

Ele empurra o copo de suco de abóbora de volta para o elfo com um gesto brusco e se endireita, ajeitando as vestes pretas com insígnia da Sonserina.

— Tenho mais o que fazer do que ficar perdendo tempo ouvindo suas análises sobre a rotina de Hogwarts. Fica com o seu bolo e vê se não se perde no caminho de volta para a torre — ele diz, virando as costas e caminhando a passos largos em direção à saída da cozinha.

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